Emprego e Inclusão
O Papel dos Grandes Grupos Económicos na Promoção de Oportunidades para Pessoas com Deficiência

É com muita satisfação que aqui correspondo ao simpático e honroso convite que me foi dirigido pela FENACERCI para escrever um artigo na edição deste ano da sua Revista – aproveito para sublimar o extraordinário trabalho que a FENACERCI e as suas associadas têm feito em múltiplos domínios em Portugal ao longo das últimas décadas.
O tema que me foi proposto – Emprego e inclusão: o Papel dos Grandes Grupos Económicos na Promoção de Oportunidades para Pessoas com Deficiência – é da maior relevância e abordo-o a partir da minha experiência em dois planos distintos mas totalmente convergentes: em primeiro lugar enquanto Presidente Executivo da CUF e, em segundo lugar, no contexto de promotor e participante na iniciativa Inclusive Community Forum da Nova SBE (Universidade Nova de Lisboa) que se lançou há 8 anos.
Em concreto, o lançamento do Inclusive Community Forum (ICF) partiu da experiência da nossa família com o nosso filho Bernardo de que uma comunidade mais inclusiva é uma comunidade melhor. E por isso desafiámos a Nova SBE a criar um projeto que procurasse desenvolver iniciativas – com escala e de forma estruturada – orientadas a promover uma maior e melhor inclusão.
A concretização desta iniciativa na Nova SBE partiu da convicção de que precisávamos de um trabalho conjunto e articulado entre, por um lado, uma instituição universitária com excelentes recursos na sua comunidade académica e, por outro lado, um contexto – no seu Campus de Carcavelos – em que se encontram muitas empresas, muitas associações, muitos professores com enorme dinamismo, bem como milhares de alunos com muito talento e enorme potencial para o futuro.
O primeiro e mais importante tema que o ICF lançou desde o início é o da empregabilidade de Pessoas com Deficiência. Esta prioritização partiu da constatação que as dificuldades de empregabilidade são muito relevantes e que a possibilidade de trabalhar e assim contribuir para a comunidade, constitui uma alavanca central para a melhor inclusão.
Para que isto se concretize lançaram-se um conjunto de iniciativas diferentes e com impacto em diferentes áreas mas em que o papel das empresas é absolutamente crítico.
Em concreto, elenco três iniciativas de maior relevância:

a) Jornada para a Inclusão: um convite às empresas
A Jornada para a Inclusão começa com a assinatura do “Compromisso com a Inclusão” pelas empresas que pretendam participar. As empresas que assinam o “Compromisso com a Inclusão” declaram o seu interesse em promover a empregabilidade de pessoas com deficiência na empresa que representam, e comprometem-se em fazê-lo, reconhecendo o valor económico e social desta realidade, não apenas para a própria empresa e para os seus colaboradores, mas também para a sociedade. Iniciámos em 2019 com 24 empresas signatárias e temos hoje 82 empresas, muitas delas entre as maiores instituições portuguesas.
Estas empresas beneficiam do apoio do ICF na operacionalização dos primeiros passos para a contratação de pessoas com deficiência e podem beneficiar da experiência de todas as empresas para aprenderem que iniciativas, que abordagens, que experiências são mais relevantes para concretizar estes objetivos de empregabilidade. Esta é uma área onde caminhar em conjunto é de enorme benefício.

b) Recrutamento Inclusivo: uma abordagem estruturada
Neste caso tem-se desenvolvido um enorme esforço para estruturar cada vez melhor o processo de recrutamento de pessoas com deficiência, seja interno, seja pelo recurso a empresas externas especializadas em recrutamento e que têm criado áreas específicas para estes casos. Importante reconhecer que o recrutamento de pessoas com deficiência tem que seguir, naturalmente, os mesmos critérios de rigor e exigência, mas pode ter que ser adaptado e, sobretudo, não pode ter preconceitos que possam levar à exclusão de potenciais candidatos à partida. Adicionalmente pode requerer uma abordagem mais estruturada ao acolhimento e formação na empresa. Assim, esta iniciativa procura partilhar a experiência e as boas práticas no processo de recrutamento que maximizem as probabilidades de sucesso de cada caso.

c) Capacitar para Empregar: um passo prévio fundamental
A experiência com recrutamento inclusivo indicou a necessidade, em muitas circunstâncias, de reforçar formação em competências essenciais para o mercado de trabalho, para pessoas com deficiência e para os técnicos das organizações sociais que as acompanham, de forma a melhorar o seu potencial de empregabilidade. As formações são dinamizadas por empresas, nomeadamente o Millennium BCP ou a Accenture, que colocam o seu know-how ao serviço da capacitação das pessoas com deficiência, envolvendo, enquanto formadores e formandos, recursos da comunidade já existentes.
Em síntese, a empregabilidade com pessoas com deficiência é uma alavanca fundamental para maior e melhor inclusão na comunidade. A maximização desta empregabilidade exige um compromisso claro das empresas e uma perspetiva de longo prazo, já que a inércia é por vezes forte e nem sempre o caminho é fácil.
Quando é bem feita, com rigor, exigência e abertura, torna evidente que todos podemos acrescentar valor e que o que é fundamental é focarmo-nos no que cada um pode fazer e menos no que não conseguimos fazer – nenhum de nós sabe ou consegue fazer tudo!
É por isso que iniciativas como as do ICF são muito relevantes para que cada vez mais instituições possam avançar nesta jornada, beneficiando de um caminho conjunto em que todos aprendemos uns com os outros e nos motivamos e apoiamos mutuamente. E se é certo que as empresas são muito relevantes, não posso deixar de referir tantas e tantas instituições do terceiro setor – desde logo as CERCI – que fazem um trabalho extraordinário neste domínio e que se têm constituído como parceiros fundamentais do setor empresarial.
As grandes empresas têm aqui um papel muito relevante de abrir caminho, de mostrar que é possível, mas as pequenas e médias empresas também têm feito muito progresso e são muito relevantes, dada a sua presença geográfica ser muito mais distribuída pelo país.
Uma nota final para referir que temos progredido bastante na empregabilidade de pessoas com deficiência ao longo dos últimos anos mas continua a existir muito por fazer; pela minha parte e enquanto Presidente Executivo da CUF o que posso dizer é que os resultados que temos tido na nossa própria jornada têm sido muito positivos e somos hoje uma melhor empresa por podemos contar nos nossos quadros com mais colegas, que apesar de alguma qualquer incapacidade, nos acrescentam muito valor. E é por isso que incentivo todas as empresas que ainda não iniciaram este caminho a considerarem esta possibilidade – é fundamental começar!

Rui Diniz
Presidente da Comissão Executiva | CEO na CUF

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