A imagem mostra uma ilustração, como que desenhado a lápis, de uma mulher. Esta figura não tem olhos, nariz ou boca. Está sentada, a cabeça apoiada numa mão, numa postura de tristeza, cansaço extremo ou até desespero. Ao lado da sua cabeça, está um balão em formato de nuvem, que representa os seus pensamentos.

Intervenção Precoce na Infância sem Burnout
Um Projeto Europeu que Reforça a Resiliência de Pais e Profissionais

O risco de burnout em pais e profissionais de crianças com necessidades específicas é superior ao de famílias típicas e a utilização de ferramentas específicas de prevenção, assentes na promoção de resiliência familiar, autoconhecimento e auto-cuidado contribuiu para minimizar o impacto dos fatores de risco associados ao burnout, é o que concluiu o projeto Intervenção Precoce na Infância sem Burnout desenvolvido entre 2020 a 2024, pelo CECD MIRA SINTRA e entidades europeias interessadas no tema, como as Universidades Sveuciliste u Zagrebu (CR), a Universitatea Babes Bolyai (RO) e a Panepistimio Thessalias (GR); prestadores de Intervenção Precoce na Infância como a Mali Dom – Zagreb Dnevni Centar Za Rehabilitaciju Djece I Mla- dezi (CR) e a Karin Dom Foundation (BU).
Contámos ainda com a participação de um especialista em desenvolvimento de ferramentas digitais, Theofanis Alexandridis Kai Sia Ee (GR), e de uma entidade certificadora, a Kypriaki Etaireia Pistopoiisis Limited (CY). A coordenação coube à EASPD.
Em Portugal, o Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância (SNIPI) avalizou a colaboração da Equipa Local (ELI) de Sintra Oriental – profissionais e famílias na co-definição, concretização e co-avaliação das atividades inerentes ao projeto.

A intervenção precoce é, por natureza, um campo de intensa dedicação. Profissionais e famílias partilham o mesmo objetivo — proporcionar o melhor desenvolvimento possível às crianças com necessidades específicas —, mas enfrentam desafios significativos que podem levar ao esgotamento emocional.
Reconhecendo essa vulnerabilidade, o projeto seguiu um processo significativo garantindo resultados de elevada qualidade:
● Certificação do Programa Prevenção Burnout;
● Reflexões sobre as práticas e App propostas e a fase de elaboração de relatórios;
● A fase de Implementação da Ação Piloto;
● A construção do Programa de Formação para pais e profissionais;
● A Revisão da Literatura e Diagnóstico de Necessidades.

Revisão da Literatura e Diagnóstico de Necessidades
Consiste num Relatório sobre burnout, incluindo revisão da literatura e pesquisa e avaliação de necessidades dos profissionais de Intervenção Precoce na Infância (IPI) e dos pais enquanto cuidadores e educadores de crianças com riscos de desenvolvimento.

Programa de Formação IPI Sem Burnout para Profissionais e Pais
Entre os parceiros, foram desenvolvidos Manuais Formativos do Programa de Formação IPI sem Burnout com conteúdos sobre:
● Definição e reconhecimento do burnout;
● Ambientes saudáveis e que previnam burnout;
● Estratégias de prevenção do burnout;
● Implementação de estratégias de prevenção de burnout.

Guia Metodológico e Relatório sobre a Ação de Formação Piloto
Guia que apresenta a metodologia proposta para a ação piloto e os questionários de recolha de informação junto dos agentes envolvidos em IPI (famílias, profissionais e coordenadores de equipas/ organizações de IPI). O relatório é construído com base na utilização das estratégias para prevenção do burnout selecionadas de entre as descritas no manual, e que foram aplicadas pelas equipas de IPI dos parceiros durante os 8 meses de atividade em IPI. Foi feita a definição de 4 conjuntos de estratégias de prevenção de burnout em IPI. Cada um engloba um conceito principal com técnicas e práticas correspondentes:
● Cluster 1 – Estratégias de auto-conhecimento e práticas centradas na família;
● Cluster 2 – Estratégias de desenvolvimento das forças da família;
● Cluster 3 – Estratégias de Resiliência;
● Cluster 4 – Estratégias de Relaxamento.

Jogo de e-learning
O Jogo de e-learning consiste numa aplicação gratuita desenvolvida para servir as necessidades de formação dos profissionais e dos pais, utilizando ferramentas de avaliação, testes, acesso a materiais, quadro de gamificação e feedback.

Certificação do Programa Prevenção Burnout
A fim de estabelecer um elevado nível de qualidade, foram estabelecidos dois sistemas de certificação validados: I. Sistema de certificação para a certificação de currículo & material de formação & II. Sistema de certificação de formadores. As certificações garantem um elevado nível de qualidade, uma clara correlação com o QEQ e o ECVET e proporcionam aos utilizadores qualificações internacionalmente reconhecidas (norma ISO 17024).

Plataforma Digital www.burnoutfree.eu
A Plataforma online e a Metodologia de replicação permitem o desenvolvimento de um ecossistema digital, cursos de e-learning, oportunidades de aprendizagem híbrida, abordagens inovadoras para abordar grupos-alvo, maior eficácia das atividades em benefício dos beneficiários, garantindo a sustentabilidade do projeto e aumentando o seu alcance e impacto para além do consórcio. A plataforma online www.burnoutfree.eu cria uma comunidade de diálogo, cooperação e oportunidades de aprendizagem partilhada para pais e profissionais, promovendo a colaboração multidisciplinar e transversal entre organizações do consórcio e não só.
Com a realização de Revisão de Literatura e Diagnóstico de Necessidades conseguimos identificar – em cada um dos grupos-alvo envolvidos -, fatores de risco associados ao burnout e por via da concretização de uma Ação de Formação Piloto durante 8 meses de intervenção em IPI nos diferentes países e equipas, foi feita a validação de boas práticas na prevenção do burnout nesta população, a saber:

  1. Organizações
    Fatores de risco associados ao burnout
    A utilização destes questionários teve como objetivo recolher informações sobre a perspetiva organizacional em relação a questões como burnout, relacionamento com pais e equipa multidisciplinar, necessidade e objetivos de formação e competências necessárias nas equipas. Estes expressaram as suas opiniões sobre os temas presentes em termos de importância, estratégias e plano de ações, dificuldades e oportunidades. O outro aspeto importante a definir e abordar referia-se ao fator de sofrimento e burnout em profissionais e pais.
    Todas as organizações participantes acreditaram que os seus profissionais apresentavam sinais de burnout. De acordo com os dados recolhidos, os profissionais apresentaram sinais de burnout da seguinte forma: “frequentemente” (20%),“muito frequentemente” (20%) ou “ocasionalmente” (60%).Os diretores identificaram como causas dos níveis elevados de stress neste contexto de intervenção as seguintes: tomada de decisões; falta de deveres e responsabilidades claros; sobrecarga de trabalho; casos complexos e graves; falta de estabilidade financeira da ONG; conjunto de necessidades desafiantes; salários baixos; falta de reconhecimento profissional por parte dos pais; comunicação informal; ritmo de trabalho necessário; expectativas pouco claras; expectativas elevadas; complexidade das funções/deveres.

    Validação de boas práticas na prevenção do burnout
    Dados recolhidos no final da Ação Piloto de 8 meses, por via da aplicação de 10 questionários sobre o “O papel das Organizações quanto ao burnout profissional”, destacaram a importância de criar ambientes de trabalho saudáveis:
    • Todas as Organizações participantes no Projeto Intervenção Precoce na Infância sem Burnout forneceram feedback aos seus profissionais “frequentemente” (60%) ou muito frequentemente” (40%). Além disso, as reuniões individuais com cada profissional foram realizadas “frequentemente” (80%) e, em alguns casos, “muito frequentemente” (20%).
    • A maioria das Organizações (80%) referiram que permitem aos seus profissionais “muito frequentemente”, tomar a iniciativa e organizar o seu horário de trabalho.
    • 60% das Organizações proporcionaram oportunidades aos profissionais para o desenvolvimento e crescimento profissional. Em 40% das Organizações existem oportunidades “frequentes”.
    • As Organizações proporcionaram diferentes tipos de oportunidades de crescimento e desenvolvimento profissional, tais como: a. oportunidades de participar em projetos de grande escala, como os projetos Erasmus+, b. apoio à frequência e participação em conferências, c. oportunidades de formação interna focada nas capacidades e competências necessárias e d. Oportunidades de participar em eventos de formação externa em colaboração com diversas organizações.
    • 80% referiram promover a autonomia dos profissionais e 60% asseguravam oportunidades de crescimento. Todas as entidades participantes implementaram estratégias de bem-estar, como atividades de teambuilding, supervisão clínica e mentoria.
    • 80% das Organizações referiram que valorizavam a contribuição e a perspetiva dos profissionais “com muita frequência”, enquanto 20% delas consideravam contribuição e perspetiva dos profissionais frequentemente”.
    • As Organizações valorizaram a contribuição do profissional, através de reuniões de pequena e grande dimensão e pelo menos uma vez por ano, com todo o pessoal reúne-se com a equipa administrativa, e as práticas de supervisão.
    • Todas as Organizações que participaram no programa destacaram que cuidam dos seus profissionais: a. através de reuniões individualizadas, b. sessões colaborativas com um médico de clínica geral e um psiquiatra, c. através de workshops destinados à descompressão, autoexpressão e entretenimento, e d. através de oportunidades de mentoria. De um modo geral, todas as Organizações deram ênfase ao bem-estar do pessoal.

Já os 10 questionários “Feedback das Organizações em relação ao Piloto” aplicados no mesmo momento, denotam que as organizações prestadoras de serviços de IPI parceiras:
• Enfrentaram vários desafios durante a implementação das práticas propostas pelo projeto, sendo que 37,5% das organizações tiveram de lidar com a situação “tempo limitado”. 12,5% das organizações referiram os desafios relacionados com a disponibilidade e vontade de envolvimento da família.25% dos profissionais afirmaram não conhecer as práticas, enquanto 25% das organizações destacaram outros desafios pertinentes para a saúde mental dos pais.
• Todas as Equipas de intervenção Precoce na Infância participantes afirmaram que as práticas propostas pelo Projeto Intervenção Precoce na Infância sem Burnout funcionaram bem tanto para os seus profissionais como para as famílias.
• 80% das organizações participantes salientaram a importância de trabalhar as práticas específicas por todos os profissionais antes de as implementarem com as famílias.
• Além disso, todas as organizações participantes destacaram que as práticas propostas estavam de acordo com as suas necessidades e objetivos.

  1. Profissionais e práticas implementadas
    Fatores de risco associados ao burnout
    Dados recolhidos por via da aplicação de 227 questionários, denotam a:
    • Necessidade de informação e formação tanto sobre o tema do burnout como sobre temas relacionados com o seu trabalho;
    • Necessidade de estratégias de gestão do stress, mas não aconselhamento terapêutico, antes ajuda para lidar com problemas emocionais ou psicológicos;
    • Noção que é menos necessária a formação em comunicação, expressão das necessidades e feedback;
    • Expressão de menor necessidade de contacto e apoio dos colegas da equipa.
    De forma geral, temos como resultados e necessidades percetíveis dos profissionais de IPI incluídos a noção que as questões pessoais devem ser trabalhadas pelo profissional como parte da estratégia de prevenção do burnout e que embora respondem que não precisam de muito trabalho de desenvolvimento pessoal, no entanto, o que descrevem contradiz o que responderam.

    Validação de boas práticas na prevenção do burnout
    Os profissionais envolveram-se em quatro fases de aplicação de práticas (clusters), focadas no autocuidado, na comunicação com as famílias e na gestão emocional. Entre as técnicas mais utilizadas estiveram o ‘Círculo de Apoio’, o ‘Perfil de uma Página’, a ‘Lista de Gratidão’ e o ‘Diário das Emoções’. O principal desafio relatado foi a limitação de tempo para aplicar as práticas. Ainda assim, o impacto foi amplamente positivo. Os profissionais relataram maior confiança, clareza e estrutura no trabalho com as famílias:
    “Sinto-me contente porque a família se dispôs a cooperar”
    “Fico aliviado por ver que esta técnica ajudou a família”
    “Estas práticas deram-me confiança e uma estruturar obusta para o processo de trabalho”
    “Sinto que através destas técnicas consegui fortaleceras competências da família na gestão das dificuldades
    ”Sinto-me satisfeito pela resposta positiva da família”
  1. A voz das famílias
    Fatores de risco associados ao burnout
    Os dados recolhidos através da aplicação de 294 questionários, evidenciam que:
    • O apoio é necessário de forma contínua e diária — tanto no que se refere à criança, como aos restantes membros da família e ao próprio cuidador. No momento em que este assume o papel que lhe é atribuído, torna-se fundamental dispor de alguém que o apoie e reforce positivamente, transmitindo mensagens de encorajamento, tais como:
    • A decisão de ter filhos está geralmente associada à expectativa de que estes sejam saudáveis. Quando os pais descobrem que o seu filho tem perturbações de desenvolvimento, a sua vida profissional tende a tornar-se significativamente mais complexa, o que repercute de forma relevante a dinâmica e o bem-estar familiar;
    • Em muitos casos, os pais, e em particular as mães, sentem que dedicaram toda a sua vida ao filho. Esta perceção conduz frequentemente à limitação da participação em atividades sociais, decorrente do sentimento de responsabilidade constante de acompanhar e supervisionar a criança em todos os momentos;
    • Verifica-se, igualmente, uma forte necessidade de expressão emocional por parte dos pais, sobretudo em situações em que atingem um ponto de exaustão ou incerteza relativamente ao comportamento ou progresso do filho, não sabendo como proceder de forma adequada;
    • Emerge, ainda, a necessidade de padronizar a prestação de serviços especializados, designadamente através da obrigatoriedade de elaboração de planos e programas de intervenção escritos, em detrimento de práticas espontâneas.
    • Para além disso, recomenda-se a limitação do número de terapias diárias por técnico, a valorização do tempo de preparação individual para cada criança, a desconstrução da crença parental de que “quanto mais se trabalha, melhores são os resultados” e a atribuição de prioridade na admissão em jardins-de-infância, de modo a reduzir o stress parental associado à incerteza deste processo.
    Como resultados e necessidades percetíveis das famílias emergem a formação em temas da parentalidade e apoio nas questões de autoconhecimento.

    Validação de boas práticas na prevenção do burnout
    As famílias participantes relataram melhorias significativas: 83% referiram menor pressão emocional, 80% disseram ter melhorado a comunicação familiar e 78% sentiram-se mais eficazes no cuidado dos filhos. O maior desafio identificado foi a gestão do tempo.
    Entre as técnicas mais valorizadas estiveram o ‘Quadro dos Sonhos’, a ‘Terapia Focada na Compaixão’ e as ‘Técnicas de Relaxamento’.
    Os testemunhos revelam o impacto humano destas práticas:
    “Ajudou-me a redirecionar a minha maneira de pensar.”
    “Percebi que tenho mais pessoas com quem contar.”
    “Ajudou-me a encontrar equilíbrio e dedicar tempo a mim e aos meus filhos.”

Em conclusão:
O projeto IPI Sem Burnout demonstra que prevenir o burnout é possível quando se aposta numa abordagem biopsicossocial, centrada na pessoa e apoiada pela comunidade. As boas práticas validadas ao longo deste percurso afirmam-se como referência europeia na promoção do bem-estar emocional de pais e profissionais. As aprendizagens, metodologias e ferramentas desenvolvidas no âmbito do Programa de Formação IPI Sem Burnout demonstraram potencial para serem adaptadas e aplicadas a outros contextos de apoio e intervenção humana — nomeadamente nas áreas da educação, saúde, infância, apoio a pessoas idosas, deficiência e outros públicos vulneráveis, bem como em ambientes empresariais que valorizem o bem-estar e a sustentabilidade emocional das equipas. As pistas levantadas ao longo do projeto — como a eficácia das estratégias de autocuidado e resiliência, o impacto das práticas de autoconhecimento, ou a importância da supervisão colaborativa e do apoio interpares — constituem pontos de partida valiosos que devem continuar a ser objeto de investigação-ação, aprofundando a compreensão dos fatores que promovem o bem-estar e previnem o burnout em diferentes contextos profissionais e comunitários.

CECD Mira Sintra

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