Mensagem de Abertura

Guardiões do Outro

A deficiência física ou mental pode limitar a mobilidade ou a destreza intelectual de uma pessoa, mas não limita a sua originalidade, a sua criatividade, os seus sentimentos e o seu amor. Uma pessoa com deficiência não é um “menos”, mas um “mais” para a sociedade. Como afirmava o Santo Padre por ocasião do encontro do G7 sobre “Inclusão e Deficiência”, «toda pessoa é um dom precioso para a sociedade» (17 outubro 2024).

Disso nos recorda, a título de exemplo, a artista Judith Scott (1943-2005), uma artista norte-americana com síndrome de Down, que produzia esculturas a partir de fios têxteis entrelaçados. As suas obras tácitas eram e são, paradoxalmente, um grito diante de uma sociedade que valoriza facilmente os mais fortes, os mais rentáveis ou os mais produtivos.

Neste sentido, o trabalho desenvolvido pelas CERCI é um trabalho silencioso, mas imprescindível à sociedade, não só porque cuida de pessoas, mas também porque recorda muitas coisas fundamentais à própria sociedade.

Ao celebrarmos este ano o Jubileu da Esperança na Igreja Católica, esta é uma palavra que jamais devemos esquecer no nosso vocabulário quotidiano. A esperança não pode ser uma utopia, mas uma realidade. Por essa razão, quero também saudar todos os colaboradores que dão vida a estas instituições e que, no seu silêncio e anonimato, cuidam cada uma destas pessoas como se fosse o seu próprio filho/filha, o seu próprio irmão/irmã, o seu próprio pai/mãe. Só quem trabalha diáriamente nesta área sabe o grande desgaste físico e emocional que esta missão acarreta. As instituições são mais que as suas paredes e dias de festas, são sobretudo as pessoas que lhe dão vida, sejam os utentes sejam os colaboradores.

Embora sejam estas instituições a assumir a primeira responsabilidade no cuidado destas pessoas, este trabalho não pode limitar-se a um patamar institucional, mas deve ser extensivo a uma responsabilidade civil de todos nós, seja de um modo direto ou indireto. A começar desde logo pelo reivindicar e promover o direito destas pessoas à acessibilidade aos serviços sociais e culturais, à sua autonomia existencial e à proteção de índoles discriminatórias.

Ao mesmo tempo, é necessário que a própria ciência não descure a sua responsabilidade por este setor da sociedade, seja no estudo médico de prevenção e cura de doenças similares, seja na investigação técnica de equipamentos que favoreçam uma maior autonomia destas pessoas. A par disso, que as escolas possam integrar nos seus projetos educativos uma maior consciencialização sobre esta realidade, a fim de que, progressivamente, se construa uma maior cultura inclusiva.

Por fim, a primeira pergunta que Deus faz na Sagrada Escritura continua a ser proferida sobre todos nós: “Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9). Nós não somos apenas humanos, somos também “guardiões do outro”.

Cardeal José Tolentino de Mendonça
Dicastério para a Cultura e a Educação, Vaticano

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